quinta-feira

Reveillon

Eu queria encontrar palavras que descrevessem. Todas as cores, gestos, cheiros. Todos os sabores bêbados. Todas as imagens trêmulas. 31/12. Passa da meia-noite. Todos se abraçam com a chegada do novo recomeço. Precisamos de sorte. De morte. De ver. Ver que correr pela rua longa para ver aquilo que nunca se viu é amor. Que inocentemente, num gesto de quem se sente feliz, ao puxá-lo pelas mãos, é o amor quem comanda. É a confiança advinda dele, do amor que bate na aorta, que nos leva a perder o medo. É o beijo que não se sente, mas se recebe de madrugada. O carinho delicado de quem não quer acordar. Amor é ter confiança. Em si. É saber que aquele pouco é nada. Porque o amor... Explicações. Sei que essa cena jamais será esquecida. De mãos dadas, corremos lado a lado, na mesma velocidade, porque ali havia. Amor,?!...

quinta-feira

Música para as Pontas dos Dedos



A melodia era suave.
A respiração, ofegante.
Seus dedos magros percorriam toda a extensão de meu braço direito. Leves arrepios duradouros se dissipavam de quando em quando. A insegurança de poucos encontros em olhares secos, fortes, certeiros.
A melodia era suave quão suave seria acariciar com as pontas dos dedos as nuvens de algum céu.
A melodia interminável.
O abafar no peito, alguma angústia nova. As mãos suavam frias, ansiosas, levemente apaixonadas. Na verdade, embriagadas.
O quarteto embalava um apanhado de sensações inesperadas. Dedilhava cordas com paixão, desejo, empáfia e uma excessiva sensibilidade imprescindível.
Naquele teatro, alguns cochilavam, outros acordavam. Eu saía um pouco de mim, mas retornava ao disparar das batidas, que ainda eram somente minhas, e ao desenrolar das peças, que iam e vinham como ondas que chegam altas e se desmancham em lembranças.
Eu não conseguia disfarçar que respirava de maneira seguramente apressada, assustada, tal como criança que fora pega no ato tomado como incorreto pela mãe.
E te olhar era tal como respirar: necessário, indispensável, delicioso.
A melodia agressiva.
O músico se confundia com seu instrumento. E era violentamente bela a forma como ele o segurava: ao mesmo tempo delicado, como se toca algo ao qual se quer muito bem; e agressivo, como se encara algo que há muito se deseja a ponto de já não saber os seus limites e os do outro.
E era como se sentir enlevado por uma melodia estranha, nova, cuja cadência, procedência, cheiro e cor não faziam a menor diferença. E era belo e tão distante dos sentimentos mesquinhos ultimamente experimentados aquele que ali se revelava. E era o silêncio há muito desejado.

segunda-feira

Ao tragar de um novo cigarro



Ao som de “brazilian sun” nós nos olhamos por alguns minutos. O tempo parado com todos os seus sons. Amanhecia. A maquiagem dela estava borrada nos cantos dos olhos. Já não havia a artificialidade dos tons. Nem a música alta, nem a intransigência de muitos, nem o efeito do álcool.
Pouca luz. Do computador e das frestas que todo quarto possui.
Olhares. Sorriso de gente que não sabe o que fazer.
Pele. Palidez. Nó na garganta do engolir a seco a cada quantidade pequena de instante.
Lábios molhados. Mãos suadas. Nervosismo.
Um ar de consentimento toma conta do quarto mal-iluminado. Desabotôo a camiseta dela cujo cheiro de coisa nova e o perfume fortemente doce tomam conta de tudo. Meticulosidade botão a botão. Um respirar ofegante. Um aroma gostoso toma conta de nós dois. Encontro de peles. Tez contra tez. Barriga, peito, seios, pernas. Pele macia. Alta temperatura. Quase-febre. Olhares. Cada vez mais devoradores um do outro...
Nada de vozes. Nem a grave, nem a aguda. O silêncio cede espaço aos ofegantes ruídos que cada vez mais surgem com menor freqüência. Ruídos de quem, instintivamente, sabe o que fazer...
Dois corpos nus seriam apenas isso? Não há tempo para pensar. Acaricio as costas arrepiadas e macias dessa menina cujo corpo treme a cada passar de mãos, a cada possibilidade de uma nova sensação magicamente dolorosa como algumas das sensações que ainda não foram experimentadas.
Deslizo meus dedos magros pelo seu corpo, como os patins em uma pista de gelo intocada. Ela geme um gemido preso, porque meus pais não podem sequer desconfiar que ali descubro e exploro o corpo de uma menina.
Há horas compartilhamos do mesmo desejo, das mesmas luzes, de olhares igualmente tristes, do sabor do resto de álcool. Por longas horas...
Agora, compartilhamos dos nossos corpos, fluidos, dores, curiosidades.
Horas depois, ela se levanta, recoloca a roupa que minuciosamente eu havia decalcado de seu corpo e se vai. Espero revê-la. Mesmo que só possa admirá-la a dançar e dançar entre luzes artificiais, pessoas intransigentes, ruídos, cigarros sabor cereja, cores, gente artificial, batons, mãos suadas, maquiagem pesada, copos de bebidas destiladas, risos forçados...

Diálogo embriagado

No começo, beijos. Abraços eternos, olhares etéreos... Mas naquele dia:
“Você não vai me entender. Pois então tente explicar. É difícil pra mim... Conte-me! Tente! Eu não sou aquilo que você pensa. Eu tampouco... Não faço parte disso. Eu não quis dizer isso... Eu não quis participar disso. Eu sei. Sabe? Acho que sei. Tá vendo? Um emaranhado de dúvidas e incertezas. É normal. Você apareceu no momento... Errado? Tantas vezes essa frase... Acontece... Acontece? Por tanto tempo... Seria somente sexo? Talvez... Talvez? Isso é lá resposta que se dê? Mas é “talvez” mesmo! Olha, eu não te entendo... Você não entende a si, como pode querer entender os outros? Você tem razão... Me dá um beijo. Não sei, isso me faria sofrer amanhã. Amanhã? Ah, amanhã você vê o que faz... Vem aqui, me beija com toda aquela ferocidade do primeiro encontro de nossos lábios! Não consigo... O hoje é outro instante, diferente daquele. Eu já mudei aquilo que me constituía, sou outra. Única? Isso nunca! O que é hoje, então, tão diferente daquilo que já foi? Agressiva? Desanimada? Desarmada? Falta-lhe amor? Compaixão? Nada a declarar... Assim prefiro. Eu não consigo ser... Ser? Mas se fala comigo neste instante, já é algo que sabe ser. Não é isso. Estou reticente de mim mesma. Nós não conversamos sobre os rótulos... E eles realmente importam? Mas naquele dia do café... Foi só uma opinião sobre o filme... Não sei, havia algo no seu olhar. Algo? O de sempre. Desejo... Isso representa algum problema? Não, mas a questão que somente ele... Isso não é lá muito agradável! Você desaparece...”
E foi assim que, aos berros, se esvaiu mais uma quase história de amor.

terça-feira

Monólogo Sob o Efeito de Morfina ao Som de Regina Spektor

Eu não sei onde você está. Acho que nunca soube. Aliás, tal informação nunca esteve sob o meu domínio. É verdade que em minha vida você é personagem recente. Mas nesta noite fria de sábado, a febre extraiu de mim aquilo que me sobrava de racional. Sou um ser passional a partir de agora. Demasiadamente...
Recordo-me da dor que senti no momento em que ouvia o motor rabiscando o meu pulso magro. Lentamente. Sons aspirados supirados. Suportei a dor naquela tarde quente do dezembro passado, porque sentia falta de alguma coisa quando observava esse espaço em branco, frágil. Mas, nesta madrugada longa, solitária, a dor é minha amiga. E inimiga também. E eu não suporto sentir dor...
Você, longe daqui, do outro lado da cidade, fecha os olhos, entoa canções conhecidas, outras desconhecidas – cujas letras você aprende na hora, empunha um copo com alguma bebida alcoólica e emana a todos uma impressão de poder, de total falta de decência, pudor, medo.
Aqui o cenário é totalmente oposto. As olheiras que saltam de meu rosto pálido denotam meu estado (excessivamente gripal) de desamparo, desassossego que culminam com a palavra que não quero pronunciar. Mas ela bate no um ouvido. Eu a afasto num movimento brusco, desesperado. Carência. Por que não está aqui bem perto, com seus suspiros longos, com seu andar desajeitado, com suas frases soltas, no bom e velho estilo citação que invadem uma conversa e confundem os interlocutores que dela tiram algum proveito quando conseguem entender seus motivos para relembrá-las? Às vezes não se pode responder.
Sábado à tarde, febre. À noite, igualmente. Lembrei de uma canção da adolescência, da Legião Urbana, em que o eu lírico se queixava de uma febre terçã, advinda de seu estado depressivo. Uma sessão de DVD’s tenta me enganar. Falta. As pessoas fazem falta. Mas a falta é minha ou delas? Sobre isso não se pode responder...
No meio da noite, no meio de uma crise de choro, fumo um cigarro numa atitude irresponsável. Tosse. Por alguns minutos... Chegando ao ponto de sentir meu rosto esquentar. Estou obcecada por saber por onde você anda. Pego o celular e disco o seu número. Começo a tremer quando percebo que você não me atende mais ao primeiro toque, conforme fazia há dois anos. Certas atitudes mudam, é bem verdade.
Você se atrasa, não me acaricia a batata da perna ao ver televisão, não sorri, desaparece nas noites de sábado. Desaparece. Não há surpresas. Surpreendidas situações. Incompreensão. Eu nunca sei quando vai ficar, quando vai sair. Já sai do banho perfumada, salto alto, cabelos arrumados. Não consigo mais.
Não quero enxergar o óbvio, e isso se torna tão claro. De baforada em baforada. E do sofrimento que delas sou vítima. Tudo chegou ao fim, a um estado que não tem mais. Tudo fugiu do controle. Então, me descontrolo e grito e choro. Um choro de dar nó. Na garganta, na cabeça. Eu não me entendo, não me atendo. Mas você atende ao telefone, que a essa altura devia estar berrando dentro da bolsa. Eu correspondo: berro ao telefone. Você não me entende. Eu não sei o que se passa. Entre lágrimas, soluços, baba, sangue e suor, me descontrolo. Não faço parte. Não mais. As minhas partes se foram de tudo o que há em ti. Já não são mais.
Respiro. Alívio na manhã seguinte. Não há mais mentiras. Disfarces. Pelo menos por enquanto, não mais.

quinta-feira

Memórias de uma noite inacabada

Tantas luzes, pessoas, músicas. Bebidas destiladas, idéias destiladas. Horas antes, sorrisos, muitos. Tudo em demasia, num exagero necessário. Numa cena bela e suja, fétida e perfumada. Numa harmoniosa convivência de opostos.
Na mesa, nas tais horas antes, fotografias. Fotografias para não nos esquecermos de como havia sido o começo de tudo.
Estávamos visivelmente felizes. O que saltava da superfície do grupo de amigos era aquela felicidade boba, que surge como se esvai, aos poucos, por meio do líquido colorido pedido ao garçom que demorava, mas até que vinha.
E eu sabia: ela queria um dia de destruição. Pela voz alta, pelo decote, pela declarada falta de limitações naquela noite. Nada de abraços, afagos e carinhos instantâneos. Amores descartáveis, trocas desnecessárias de telefones, nomes, olhares.
Foi quando subiu a escada, e se deparou com um buquê de rosas vermelhas. E falsas. Colheu uma daquelas como quem sentisse falta de um adorno.
Juntos, como recompensa, nos deparamos com o céu. Não havia estrelas nessa noite. O céu oprimia aqueles que o observavam: de um tom amarronzado, esfumaçado, sombrio.
Mas ela queria um dia de destruição e aquele era o cenário perfeito. Este desejo, incessante, crescia lentamente como o bolor que ataca todo o pacote de pão de forma.
Foi quando olhei pro lado. Você dançava ao som de um bate-estaca qualquer tal como um surdo-mudo que em movimentos espasmódicos se dissipa a si e joga energia no ar sem querer saber do ritmo certo ao qual deveria se entregar. A fumaça que saía do cigarro que repousava em seus dedos magros rebolava no ar. De sua cabeça, que às vezes pendia para um lado, emanava algo que não conseguia identificar. Tudo era tão cênico, fingido. O figurino que te vestia, o cenário, os olhares voltados para chão e até aqueles que ao teu redor pareciam ser apenas atores contratados para ocuparem os espaços em branco. Você não os retinha mais. Seus espaços estavam todos preenchidos e isso se tornava visível. Minuto a minuto. De minuciosa e velada observação.
Mas ela queria um dia de destruição. Descia as escadas com suas ágeis e naturalmente torneadas pernas. Olhava em todas as direções. Mas a imagem de sua cabeça pendendo para a direita, de seu sorriso de prazer solitário, de seu olhar uma doce violência opressora, invadia-me e já tomava conta do que eu pensava ser. Mas era apenas mais uma dose de destruição necessária. Na próxima semana tem mais, e eu espero. Espectador dela. Expectador. Dotado de uma subversiva curiosidade em relação a esses personagens, conclui sabiamente que o melhor a fazer era bater de leve nos bolsos, buscando as chaves de casa, agachar pra pegar o jornal de domingo, beber um café e dormir.